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A dura coerência bíblica

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Coerência significa: “conexão, coesão, lógica, consistência”. Tudo isso encontramos na Escritura Sagrada porque esta é a Palavra de Deus.

Os teólogos da Reforma Protestante acertaram em cheio quando estabeleceram o princípio de interpretação bíblica que afirma: “A Bíblia explica a Bíblia”, e isto quer dizer que jamais encontraremos na Bíblia dois textos que se contradigam; jamais encontraremos uma verdade sendo afirmada num texto bíblico para em outro texto ser desdita e anulada. É a isso que estou me referindo aqui quando falo de “coerência bíblica”.

Sim, a Bíblia é coerente em tudo o que ela diz. E é essa coerência que devemos observar sempre para não cairmos em erros graves de interpretação os quais nos levarão a condutas erradas e contrárias à vontade de Deus.

Veja por exemplo a questão que divide os crentes no que diz respeito ao amor de Deus pelos homens. De um lado estão os Reformados que dizem que o amor de Deus para salvação dos pecadores é revelado somente aos eleitos; do outro lado estão os Universalistas que dizem que Deus amou a todos os homens sem distinção, e como base para tal afirmação usam textos como Jo 3.16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”, e 1Tm 2.4:“O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. Aí temos de recorrer ao princípio “a Bíblia explica a Bíblia”.

Em Jo 3.36 o Senhor Jesus disse: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”. Observe que a condição de todo ser humano é estar debaixo da ira de Deus. A mesma verdade encontramos em Rm 1.18:“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”. Alguém pode alegar que a ira de Deus está somente sobre aqueles que “detêm a verdade pela injustiça”, ou seja, ela não está sobre todos os homens. Porém, a Escritura Sagrada nos mostra que: “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.10-12); e “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque” (Ec 7.20).  Assim sendo, a ira de Deus está sobre toda a humanidade. Logo, a incoerência universalista se faz ver, pois, se a Bíblia quando diz que “Deus amou ao mundo” isso quer dizer que Ele amou a todos os homens, a pergunta que fica é: contra quem então Deus está irado? Estaria a Bíblia se contradizendo nessa questão tão séria e crucial para a Fé Cristã? Com certeza, não.

O objeto do amor de Deus (o homem) habita neste mundo, e por isso Deus ama o mundo, ou seja, os Seus que estão no mundo. Além disso, a palavra “mundo” em João 3.16 é um termo que o apóstolo João usa com frequência para distinguir os judeus dos gentios (mundo). Os judeus se viam como os únicos eleitos de Deus; mas o Evangelho veio mostrar que Deus tem Seus eleitos em todo o mundo e não só em Israel.  

Sua ira se revela contra todos os homens, só que em relação aos Seus escolhidos, ela se manifestou em Cristo, “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21).  A ira de Deus contra nós foi satisfeita pelo sacrifício de Cristo que imputou a nós a Sua justiça, retidão e santidade. Mas, isso não aconteceu com todos os seres humanos. Se 1Tm 2.4 estivesse dizendo mesmo que Deus quer salvar a todos os homens, então, como ficam aqueles que já estão sofrendo no inferno? E como ficarão aqueles que jamais serão salvos e serão lançados “no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte” (Ap 21.8)? Acaso não está somente nas mãos de Deus tanto o querer quanto o realizar (Fp 2.13)? Querendo Ele salvar um pecador será possível que Sua vontade não se realize?

Admitimos que estamos diante de uma dura coerência bíblica. É duro sabermos da nossa real condição: somos todos pecadores que merecem o inferno eterno como pagamento pelas nossas obras. É duro admitir que não temos em nós nada que possamos dar em troca do nosso perdão e salvação. É duro sabermos que “muitos são chamados, mas, poucos escolhidos”(Mt 20.16; 22.14). Porém, é maravilhoso saber que Deus mesmo não tendo qualquer obrigação de salvar-nos, mesmo assim fez dando-nos do Seu amor eterno. É maravilhoso sabermos que desse amor eterno ninguém pode nos afastar. É reconfortante saber que a Palavra de Deus não cai em contradição e nem se equivoca ainda que minimamente.

Rev. Olivar Alves Pereira
Ad Majorem Dei Gloriam



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