Rev. Olivar Alves Pereira
“Assim, desprezou Esaú o seu direito de primogenitura” (Gênesis 25.34). Esse é o relato do fatídico momento em que Esaú abriu mão de seu direito de primogenitura. Antes de extrairmos algumas lições importantes para nossa vida no que diz respeito a fugir do pecado e fazer a vontade de Deus, analisemos o relato bíblico de Gênesis 25.27-34.
Os gêmeos Esaú e Jacó, cresceram. Cada um tinha algo que seus pais gostavam. Esaú era um caçador que agradava seu pai com as refeições feitas com suas caças, enquanto Jacó, era caseiro e uma companhia para sua mãe (v.27-28).
Um dia, Jacó preparou um cozinhado de lentilhas, vendo isso, Esaú que voltara do campo cansado e faminto lhe pediu um pouco daquele cozinhado vermelho. A Bíblia diz que a partir de então, Esaú passou a ser chamado de Edom, que quer dizer vermelho (v.29-30).
Jacó, um oportunista (seu nome significa enganador, suplantador), fez uma proposta a Esaú: “Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura” (v.31). O direito de primogenitura (do primeiro filho) concedia-lhe privilégios e responsabilidades diferenciados. Ao primogênito cabia 50% da herança do pai (a ele caberia também cuidar e amparar sua mãe viúva), bem como a liderança de seu clã. Mas, o principal benefício era a bênção que Deus daria através do pai no momento da morte. E Jacó queria essa bênção.
O que se sucede é algo desprezível por parte de Esaú. Ele não negociou, não fez contraproposta justa evitando perder seu direito de primogenitura. Ele olhou para uma necessidade imediata (saciar sua fome), exagerou-a (“Estou a ponto de morrer; de que me aproveitará o direito de primogenitura?” v.32), e “vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó” (v.33). A essa negociação, as Escrituras afirmam que “Assim desprezou Esaú o seu direito de primogenitura” (v.34). Não se trata de uma negociação malfada, ou de um prejuízo reparável numa transação errada, mas, sim, de um desprezo. O verbo hebraico בזה quer dizer ser desprezível, menosprezar, desdenhar, e o contrário disso é honrar, temer, reverenciar. Esaú tratou como desprezível a bênção de Deus. Conforme Tiago “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tiago 1.17). Todas as bênçãos de Deus derramadas sobre nós são parte de Sua própria glória. Você percebe agora a gravidade do pecado de Esaú?
Mas, não é diferente conosco. Todas as vezes que cedemos à tentação e satisfazemos a nossa carne, estamos fazendo exatamente o mesmo que Esaú.
O pecado posto diante de nós é o nosso “pão e um cozinhado de lentilha” que:
1) É visto como uma necessidade
Tal como Esaú que movido pelo estômago só pensava em saciar sua fome, somos nós diante do pecado. Olhamos para ele e começamos a racionalizá-lo (torna-lo racional, razoável), alegando que se trata de uma necessidade. “Eu preciso satisfazer meus desejos sexuais. Deus me criou assim. Sou insaciável. Eu tenho essa necessidade!” exclama o adúltero. “Eu preciso de mais uma hora dormindo. Até mesmo porque não adiantará nada eu levantar agora e usar essa hora trabalhando” diz a mulher procrastinadora. “Meus pais não me compreendem. Se eles querem minha obediência precisam entender que preciso ser amado” diz o adolescente iracundo. O pecado quando não tratado como pecado, como algo ofensivo e desonroso a Deus, sempre será visto como uma necessidade.
2) Apresenta uma gratificação imediata
Esaú estava com fome e queria ser saciado imediatamente. Sendo ele perito caçador que sabia fazer refeições saborosas com sua caça (cf. v.28) não poderia ter voltado ao campo e pego alguma caça? É fato que ele estava esmorecido, cansado, mas isso não era desculpa para desprezar a bênção de Deus. O pecado age assim em nosso coração. Ele nos oferece gratificação imediata, nos faz olhar para a bênção de Deus como coisa sem valor, como algo pelo qual não vale a pena esperar. Quando você estiver diante de uma gratificação imediata, seja cauteloso, pois, certamente você estará diante de uma tentação instigando você a pecar. O caminho da santidade é árduo e traz gratificação eterna.
3) Traz justificativas exageradas
Esaú disse: “Estou a ponto de morrer; de que me aproveitará o direito de primogenitura?” (v.32). Quanto exagero! Um homem rústico, caçador perito, acostumado às dificuldades do campo, portando-se agora como um frouxo mimado. O pecado faz o mesmo conosco. O viciado alega não ter forças para resistir ao vício; o fofoqueiro alega não conseguir guardar os segredos dos outros, mesmo guardando muito bem os dele; o ganancioso alega não ter dinheiro para o dízimo, mas o tem para os seus deleites. Ao exagerar sua dificuldade, você foca sua atenção em si mesmo, ignorando a bênção de Deus.
4) Leva à iniquidade
O termo hebraico עֲוֺ֥ן que geralmente é traduzido por “iniquidade”, descreve não só um pecado específico, mas, deliberado, consciente e intencional. Também descreve o acúmulo de pecados não confessados. Agora, observe o que é dito de Esaú: “…ele comeu e bebeu, levantou-se e saiu. Assim, desprezou Esaú o seu direito de primogenitura” (v.34). As ações de Esaú descritas aqui revelam a iniquidade de um coração ímpio (não temia a Deus), devasso (vivia para saciar seus prazeres), e profano (tratou a bênção de Deus com desprezo).
O pão com um cozinhado de lentilhas oferecidos pelo pecado saciarão os apetites de sua carne, mas, o levarão para longe da vontade de Deus e da bênção Dele. O cominho da santidade é difícil, mas, a satisfação que a santidade de Deus promove ao nosso coração é incomparável.
Ad Majorem Dei Gloriam


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