Noutesia.org

Aconselhamento Bíblico Noutético – Orientação Para a Vida


A segunda chance e a firmeza na disciplina

Rev. Olivar Alves Pereira

Na vida familiar, na escola, na igreja, no casamento e na amizades, algo difícil de ser encontrado é o equilíbrio entre o dar a segunda chance a quem falhou e a firmeza em disciplinar o faltoso. Quando a nossa confiança numa pessoa é traída ficamos “com a pulga atrás da orelha” e com a sensação de que estamos “lançado pérolas aos porcos” quando perdoamos e damos mais uma chance a quem falhou conosco. Algumas questões merecem nossa atenção aqui. Vejamos.

Até que ponto devemos perdoar quem nos ofendeu? “Setenta vezes sete” (Mt 18.22), disse o Senhor Jesus a Pedro quando este Lhe perguntou se ele deveria perdoar sete vezes quem lhe ofendeu. A cifra aqui não é literal, mas, sim, metafórica. Ela indica completude. Em Lc 17.4 essa verdade torna-se evidente. Quantas vezes o ofensor nos pedir perdão competirá a nós perdoá-lo. Perdoando revelamos o caráter de Deus em nós.

Quem deve dar o primeiro passo para a reconciliação? A Bíblia é clara em Rm 12.18: “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens”. A pergunta que eu sempre devo fazer nessas circunstâncias de ofensa é: “tenho certeza de que fiz tudo quanto dependia de mim para que houvesse reconciliação?”. Viver em paz com todos envolve reconciliação com quem nos ofendeu ou ofendemos, e também evitar situações que possam causar conflitos desnecessários. O crente é por natureza divina um pacificador (Mt 5.9).

O que fazer com quem que depois de ter recebido o perdão continua no erro? É aqui que está a questão principal desse assunto. Como ser firmes na disciplina sem deixar de conceder uma nova chance ao faltoso? E como concedendo essa nova chance corremos o risco de estar relaxando com a disciplina que é fundamental para a restauração do faltoso (lembrando que o propósito principal na disciplina é a glória de Deus e a restauração do faltoso)? Neste ponto, muitos pais fracassam na disciplina de seus filhos, pois, temem serem firmes demais e perderem seus filhos rebeldes. Em vez de firmeza amorosa, esses pais mostram conivência com os erros de seus filhos muitas vezes amenizando a feiura dos pecados deles com um discurso “isso é só uma fase, logo passa”. Muitos cônjuges com medo da solidão preferem fazer vistas grossas aos pecados do(a) companheiro(a) e ainda dizem que “amar é relevar a fraqueza do outro, afinal, quem não tem pecado que atire a primeira pedra”. Tal atitude, longe de ser um amor verdadeiro, é uma atitude de autoproteção camuflada, pois, na verdade, é o medo de ficar sozinho que leva a pessoa a ser conivente com o pecado do cônjuge. Na mesma situação encontram-se muitas igrejas, cuja liderança é frouxa com a disciplina (tanto a formativa quanto a corretiva) e quando veem seus membros se comportando de forma contrária ao Evangelho, nada fazem para corrigi-los porque pensam que disciplinar um irmão faltoso é um ato muito rude. Como certa vez ouvi um pastor dizer: “Quem eu sou para questionar o método de disciplina que o Senhor Jesus deixou para Sua Igreja, conforme Mt 18.15-20?”. Será que o nosso jeito de lidar com os irmãos faltosos é melhor que o que Cristo deixou? Duvido. É necessário ser firme enquanto se trata um faltoso; é necessário sempre dar uma nova chance àqueles que faltam conosco. Não devemos ser duros em nossa firmeza para que não tenhamos compaixão pelo nosso irmão e não faltemos com a obediência à Palavra de Deus. De igual forma quando concedermos uma nova chance àquele que faltou conosco devemos ser firmes para que o faltoso veja a gravidade do seu erro e queira evita-lo a todo custo da próxima vez.

Em 1Pe 4.8 lemos: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados”. No grego o verbo “cobrir” é kalýptô e literalmente significa “esconder, ocultar”, não quer dizer que a Bíblia nos ordena esconder e ocultar os pecados, fazendo vistas grossas aos mesmos, mas, sim, tratar do pecado alheio com discrição, evitando exposição maldosa e vingativa, mas revelar a Graça de Deus ao coração pecador e fazer com que todos vejam, especialmente o faltoso, que ainda que o pecado dele tenha sido horrendo e grande, o amor (a Graça) de Deus vai muito mais além e perdoa o pecador. Imagine uma pessoa congelando numa noite fria debaixo da marquise de um prédio. Então aproxima-se dela uma pessoa bondosa e estende um cobertor sobre ela. Mas, essa alma caridosa não se contenta em dar o cobertor e resolve então recolher em sua casa quente e confortável aquela pobre alma que congelava na rua por não ter para onde ir. Dentro daquela casa, debaixo daquele cobertor está uma pessoa que precisa de cuidados, e que ainda é um mendigo, mas, quem a vê da rua dentro daquela casa aconchegante, não vê um mendigo, mas, sim, alguém que faz parte daquela família. O amor encobriu a miséria.

                Se o seu ato de dar uma nova chance a alguém não observa o que as Escrituras ordenam em relação à disciplina, você estará contribuindo para que essa pessoa continue no erro. Lembre-se também que seja possível que mesmo você aplicando todos os passos bíblicos numa disciplina e no perdão, a pessoa  continuará no erro (e talvez nunca saia dele). Mas, aí não dependerá mais de você.

Ad Majorem Dei Gloriam



Deixe um comentário